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4 de Abril de 2020

Presidente x ex-presidente: o que os brasileiros querem?

Na grande briga brasileira, o eleitor ainda prefere quem não foi condenado por corrupção

Paulo Bomfim, Bacharel em Direito
Publicado por Paulo Bomfim
há 6 meses

A revista Veja¹ fez uma pesquisa, em parceria com a FSB pesquisas, simulando diversos cenários eleitorais; dentre eles, uma possível – embora improvável – disputa direta entre Bolsonaro e Lula. Com o quadro apontado, é possível tirar a conclusão que querido leitor quiser, a depender de seu espectro político.

Vejamos.

Pelo recorte de renda, Bolsonaro levaria 62% da preferência dos eleitores que ganham acima de 5,5 salários mínimos, 57% dos que ganham entre 2 e 5,5 salários mínimos, 46% dos que ganham entre 1 e 2 salários mínimos e 31% dos que ganham até 1 salário mínimo. Já Lula, relativamente a essas faixas de renda, teria, respectivamente, 23%, 27%, 35% e 58%. Como se vê, ao se aumentar a renda, Bolsonaro ganha apoio; diminuindo-a, Lula o ganha.

O mesmo ocorre com a formação intelectual do eleitor: para que tem ensino superior, Bolsonaro ganha 51% de apoio, ante 28% de Lula. Para que só tem até a quarta-série (ou primeira fase do ensino fundamental, já que essas séries mudam de estado para estado), Lula é apoiado por 54%, ante 37% de Bolsonaro.

Os mais jovens (até 24 anos) preferem Lula, em tese: 45% para Lula e 43% para Bolsonaro; os mais velhos (acima de 60 anos) vão com Bolsonaro: 46% para o atual presidente, 35% para o ex-presidente e atual preso. Nas faixas etárias intermediárias, Bolsonaro leva por 46,5%, em média, enquanto Lula recebe 38%.

Por região? O Nordeste continua com Lula: este, 54%, contra 35% de Bolsonaro. Em todas as outras, regiões Bolsonaro vence com folga: 53%, em média, excluído o Nordeste, enquanto Lula fica com 31,3%, em média.

No recorte por sexo, Bolsonaro leva maioria esmagadora entre os homens (51% x 36%) e, entre as mulheres, obtém vantagem estatística (Bolsonaro 42%, Lula 40%).

A revista Veja preferiu indicar, em sua chamada, que Bolsonaro vence “entre os homens”, possivelmente para ganhar mais cliques do que não resistem à pecha de misógino colada no presidente. Estando certos os números trazidos pela própria revista, Bolsonaro vence entre homens e mulheres, com maior vantagem no recorte masculino, quase todas as regiões do país, em quase todas as idades, em quase todas as faixas etárias, em metade das faixas de escolaridade.

Os números, como dito na abertura deste texto, permitem ao analista, ao militante ou ao leitor levá-los para qualquer lado:

- Quer chamar Bolsonaro de elitista? Cite sua preferência dentre os mais ricos. O mesmo para Lula, entre os mais pobres (seria Lula o candidato dos pobres?);

- Quer chamar Lula de candidato de gente mal informada? Cite a aversão maior que pessoas com ensino superior têm por ele e sua preferência dentre os que estudaram até a 4ª série.

As opções são muitas.

No entanto, do recorte trazido ao público hoje, tem-se que, em primeiro lugar, os brasileiros, em geral, ainda rejeitam Lula, mesmo após anos de campanha por vitimização, ao tentar colocar aos operadores de um de seus processos vontades e ambições políticas – o que faria do presidente um mártir da política brasileira. Essa tese não colou, pelo menos para a maioria (não havendo recorte anterior à, por exemplo, Intercept, não se pode dizer que o apoio ao presidente aumentou ou diminui com a narrativa levantada).

Em segundo lugar, Bolsonaro continua com apoio suficiente para, hoje, derrotar o maior nome da esquerda e, por que não dizer?, o único nome desse campo político com alguma chance de tirar o atual presidente do Planalto. Os motivos para isso não estão claros e mais e mais pesquisas deverão ser feitas para entender como o brasileiro, em geral, está pensando e quais são os cálculos efetuados pelo povo para essa escolha.

Dito de outro modo: é bem razoável que entre o presidente ignorante, grosseiro e autoritário (adivinhe de quem falo, leitor!), o eleitor ainda preferia aquele que não foi pego em conluios espúrios (quem?) e (agora você descobrirá, leitor, de quem falo) foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Porém, tendo em vista ter Lula sido eleito mesmo após o escândalo do Mensalão e, ainda, ter o brasileiro colocado, por duas vezes, Dilma no Planalto, é de se concluir que os motivos dos brasileiros são muito mais complexos do que parece.

Por enquanto, o que fica é que o brasileiro ainda prefere um presidente não condenado por corrupção.

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1 - Link para a matéria: https://veja.abril.com.br/política/eleicoes-2022-os-diferentes-mundos-que-apoiam-bolsonaro-ou-lula/

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